Dr Eduardo Saraiva PimentelUm casal de mulheres decide que está na hora de ter filhos. Ambas pensam em adotar uma criança, mas a vontade de uma delas de carregar um bebê no ventre é mais forte. Por isso, optam por receber o sêmen de um doador. Essa é a história das empresárias Mariana*, 36 anos, e Priscila*, 35, juntas há 14 anos e que agora são mães de gêmeas de 2 anos. “A primeira ideia nessas situações de doação de sêmen é fazer como nos filmes americanos e recorrer a um amigo, mas desistimos da ideia, porque se tornaria um casamento de três pessoas, enquanto queríamos que as crianças fossem nossas”, explica Mariana. Ao comentar o desejo de ter filhos, elas ouviram de outras pessoas que isso não seria possível no Brasil. Por esse motivo, as duas primeiras tentativas com doação de sêmen ocorreram nos Estados Unidos — a primeira vez, em 2008. As inseminações feitas em Priscila, no entanto, não deram certo.

“O engraçado nessa situação é que, como podemos escolher o doador de acordo com as características físicas dele presentes em uma lista e fizemos o processo nos Estados Unidos, todos achavam que íamos optar por um loiro, de olhos azuis, para ter a criança que muitas pessoas consideram ‘perfeita’”, recorda Mariana. Como, porém, a mãe biológica das bebês seria Priscila, já que os óvulos seriam dela e as filhas ficariam em seu útero, o casal optou por selecionar um doador que tivesse características parecidas com as de Mariana, ou seja, olhos castanhos e cabelo castanho, como grande parte dos brasileiros. “Além disso, meu sangue é RH negativo, o que reduziu ainda mais a lista”, acrescenta Priscila.

Após as tentativas frustradas nos EUA, as empresárias descobriram que não havia impedimentos legais a um casal homossexual ter filhos com doação de sêmen no Brasil. Elas tentaram uma terceira vez já em território brasileiro, não conseguiram. Na quarta tentativa, foram bem-sucedidas. “Foram três óvulos fecundados. Dois vingaram. É curioso que, enquanto dizem que uma das meninas é a cópia da Priscila, as pessoas comentam que a outra bebê é a minha cara”, ri Mariana. As duas pretendem contar para as crianças, quando forem mais velhas, sobre como elas foram geradas “pela ajuda de uma pessoa superbacana”. “Acho que não pode ter segredo. Quanto mais mistério você faz, mais tabu você coloca sobre o assunto, o que dá mais abertura para o preconceito”, destaca a mãe biológica. Elas contam que as pequenas chamam ambas de mamãe e que nunca houve discriminação quanto ao fato de terem sido geradas por doação de sêmen ou por serem filhas de duas mulheres.

O andrologista Eduardo Pimentel, do Instituto de Reprodução Assistida Verhum, diz que a doação de sêmen pode ser feita por qualquer homem saudável, entre 18 e 40 anos. “Obrigatoriamente, a doação deve ser anônima, mas características físicas como cor da pele e dos cabelos, estatura, biótipo, raça e tipo sanguíneo são registradas. Esse cuidado é fundamental para que a receptora tenha o sêmen de um doador o mais parecido possível com seu parceiro e futuro pai (ou parceira) do eventual bebê gerado pela fertilização in vitro (FIV)”, detalha.

Pimentel alerta que a necessidade de escolher as características do doador a fim de que sejam mais próximas do pai — ou da outra mãe — da criança serve para evitar conflitos psíquicos-sociais que possam vir a surgir para o casal ou para o filho. “O gameta escolhido é, então, enviado em recipiente específico, contendo nitrogênio líquido, ao laboratório onde ocorrerá a FIV. As condições de armazenamento durante o transporte são as mesmas do banco de sêmen. No laboratório, procede-se o descongelamento e a FIV é realizada”, descreve. Ele complementa que a indicação básica para o uso de banco de sêmen é a ausência de espermatozoides do marido ou o caso de casais homossexuais, e nunca para ter um filho “mais bonito”, por exemplo.

Laços

Se para o casal homossexual a questão de usar o sêmen de um doador era bem resolvida, entre a funcionária de serviços gerais Daiana* e o marido, Arthur*, vendedor, ambos com 33 anos, a ideia não foi aceita com tanta facilidade inicialmente. “Eu tenho um problema de fertilidade e, logo que descobri, fiquei meio arredio, pois isso mexe com o nosso ego”, conta Arthur. Após saber do problema, o casal pensou em adotar uma criança. Arthur, contudo, começou a ponderar o assunto: “Se eu estava disposto a aceitar uma criança que não tinha laços de sangue com nenhum de nós, por que eu não poderia aceitar uma que tinha laços com a minha mulher?”. Os dois conversaram muito sobre a doação de espermatozoides, pois Daiana sempre sonhara em ser mãe.

Ambos escolheram um doador com características físicas semelhantes à do pai e Daiana fez a fertilização in vitro. “Estou grávida de três meses, de uma menina. Para mim, não há diferença se ela é filha biológica do meu marido ou de uma pessoa desconhecida. O que importa é que vamos criá-la com muito amor e carinho”, assegura a funcionária de serviços gerais. Eles afirmam que tiveram o apoio da família para fazer o procedimento e que, quando a bebê for maior, pretendem explicar-lhe que ela é fruto de uma doação de gametas.

* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados

Obrigatoriamente, a doação deve ser anônima, mas características físicas como cor da pele e dos cabelos, estatura, biótipo, raça e tipo sanguíneo são registradas”

Cuidado necessário

O ideal é que a mãe e o feto tenham o fator Rh sanguíneo compatível, para evitar a doença eritroblastose fetal. Esse problema de saúde é causado quando o sistema imunológico da mãe produz anticorpos contra os glóbulos vermelhos do sangue do bebê, já que o Rh da criança é positivo e o materno é negativo. Os anticorpos destroem esses glóbulos, podendo causar anemia no feto. Para evitar esse problema, pode-se fazer uma transfusão de sangue para o bebê ou, mais comumente, o médico dar uma injeção de imunoglobulina na mãe, para impedir a formação dos anticorpos.
Fonte: Correio Braziliense