doacao_de_ovulosA véspera de Natal de 2007 não poderia ter sido mais especial para a autônoma Luma*. Ela engravidou de Júlia*, fruto de uma fertilização in vitro (FIV) a partir da doação de óvulos. Luma, 49 anos, casou-se aos 36 e deixou para engravidar depois, quando estivesse estabilizada profissionalmente. Cerca de cinco anos após o casamento, pensou que estava na hora de ter um filho, mas, apesar de todas as tentativas, seu sonho não se concretizava. “Comecei a ficar preocupada, pois sempre fui ao médico e minha saúde estava boa. Então, fiz uma série de exames e descobri que estava em uma idade em que a gravidez seria de risco, pois meus óvulos já não tinham mais a mesma qualidade de quando eu era mais jovem”, relata. “Fiquei muito triste, pensando que eu não poderia mais ter filhos.”

Então, há mais ou menos quatro anos, surgiu a oportunidade de ela engravidar a partir da ovodoação. “Eu não sabia se ficava feliz ou com medo. Passei várias semanas sem ter coragem de ir ao médico saber mais sobre o procedimento, porque eu não estava preparada para isso”, admite. Quando conseguiu seguir em frente com o projeto de ter um bebê, teve acompanhamento psicológico para lidar com as novas informações.

O acompanhamento foi de grande ajuda. “Quando engravidei, não passou pela minha cabeça ou pela do meu marido: ‘Esse óvulo veio de outra pessoa, por isso a criança não é minha’. Foi apenas a doação de alguém que me ajudou a ter minha filha e completar minha vida”, assegura. Luma ressalta que a menina, hoje com 3 anos, é um pedaço dela. “Afinal, fui em quem a carregou no corpo durante nove meses. Fui eu quem senti tudo.” A autônoma, que é muito religiosa, destaca que agradece a Deus todos os dias pelo presente de Natal que ganhou a partir da ajuda de outra mulher.

O marido de Luma, o aposentado Pedro*, 63 anos, foi quem lhe deu a ideia de procurar um tratamento de fertilização. “Ouvi um anúncio no rádio e resolvi seguir minha intuição. Falei com minha mulher para procurarmos a clínica sobre a qual comentavam na emissora”, relata. Pedro garante que, para ele, nunca houve dúvidas ou questionamentos em relação a ter uma filha que seria gerada a partir do óvulo de outra mulher. “Os médicos nos explicaram toda a situação com muita clareza. Para mim, já era mais fácil aceitar, porque o espermatozoide que formaria o embrião seria meu. Minha função foi mais apoiar minha esposa nesse momento de compreender se ela ia querer ou não se submeter ao procedimento”, detalha. Ele comemora os resultados positivos de toda essa história. “Nossa filha é uma criança maravilhosa. É um presente nas nossas vidas.”

Uma dor comum

A história de Luma é apenas uma entre tantas ao redor do mundo de mulheres que desejam ser mães, mas, por algum problema com os próprios gametas, precisam recorrer aos óvulos doados por outra pessoa para realizar esse sonho. É só pensar na personagem Esther, interpretada por Julia Lemmertz na novela Fina Estampa.

O especialista em reprodução humana Vinicius Medina Lopes, do Instituto Verhum, explica que o médico seleciona quem é a doadora com base em uma lista de critérios. “Entre eles, estão cor dos olhos, cor e textura do cabelo, cor da pele, tipagem sanguínea, biótipo, altura e peso”, enumera. Scheffer complementa que a questão do tipo sanguíneo é importante porque, se o filho fizer testes de sangue, verá que é igual ao da mãe.

Lopes avalia que o preconceito sobre a doação diminuiu muito nos últimos anos. “As receptoras já encaram o caso de forma diferente, aceitam a indicação de usar óvulos de outra mulher de maneira mais tranquila”, explica. “Ao lhes indicar a ovodoação, o impacto emocional é grande, mas, ao explicar que esse procedimento é rotineiro — já que as mulheres decidem ficar grávidas cada vez mais tarde —, elas ficam mais calmas.” Ele acrescenta que é importante que doadoras, receptoras e seus respectivos companheiros frequentem um psicólogo no período em que vão decidir se pretendem ou não seguir com todo o processo. “O profissional vai detectar se há algum tipo de conflito sobre a concepção e o feto em si. Há pacientes que têm ideias irreais sobre o filho. Também existem as que querem que os genes da família sejam perpetuados e, por isso, pedem para que uma irmã doe os óvulos. Como o processo é anônimo, esse tipo de coisa não pode acontecer”, determina. O especialista em reprodução humana adverte que, se a futura mãe não compreender todo o processo claramente, pode rejeitar a criança, do ponto de vista emocional.

* Nomes fictícios a pedido dos entrevistados

Dura consequência

Atualmente, existe a chamada “conservação da fertilidade”, na qual os óvulos da paciente são retirados e congelados para que ela possa usar no futuro. Esse processo é feito principalmente em mulheres que vão se submeter a um tratamento contra câncer e pretendem ter filhos futuramente.
Fonte: Correio Braziliense