Cientistas sequenciam o genoma do esperma: Dr. Eduardo Pimentel em entrevista ao Correio Braziliense

19-07-2012_imgA grande variação no DNA dos espermatozoides estudados foi o que mais chamou a atenção dos pesquisadores. A descoberta, segundo eles, pode contribuir no desenvolvimento de pesquisas relacionadas à infertilidade masculina

Na corrida pela fertilização, até 600 mil células microscópicas navegam pelo útero para alcançar a trompa e, por fim, ultrapassar a barreira do óvulo. Nessa batalha, há apenas um vencedor: aquele que será o responsável por passar à criança as informações genéticas do pai. A variação no DNA dos milhares de espermatozoides de um único homem é maior do que se acreditava, de acordo com uma pesquisa publicada na edição de hoje da revista Cell. Pela primeira vez, um grupo de cientistas sequenciou completamente o genoma de espermatozoides humanos, o que, de acordo com eles, poderá ajudar em pesquisas sobre a infertilidade masculina.

Depois de uma década de estudos, os pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA), liderados por Stephen Quake, professor da bioengenharia da instituição, conseguiram chegar a uma técnica que decifrou o genoma de uma das menores células do organismo, que mede apenas 1/1.500 centímetros. Para isso, eles recolheram a amostra de um homem de 40 anos, saudável e com filhos, e escolheram 100 espermatozoides. Desses, 91 passaram pelo método. Jianbin Wang, aluno de graduação que assina o artigo como primeiro autor, diz que o que mais fascinou os cientistas foi o alto grau de variação dessas células. “Cada espermatozoide tem um genoma único, com padrões únicos de recombinação e mutação. Essa diversidade pode fornecer habilidades de fertilização diferentes para cada uma dessas células do esperma”, diz Wang.

A recombinação acontece durante um processo chamado meiose, a divisão celular que permite que cada gameta — o espermatozoide e o óvulo — seja formada por 23 cromossomos. Se essas células não se dividissem, ao se juntarem na fertilização, o zigoto teria 92 cromossomos, algo completamente inviável. Durante a compressão dos cromossomos nas gametas, muitos se quebram e as frações acabam recombinando, e é isso que garante uma grande variação genética, completamente diferente em cada indivíduo.

Ao decifrar o genoma de células individuais, os cientistas de Stanford constataram que, em média, cada célula apresenta 23 recombinações. Dois dos gametas sequenciados, inclusive, tinham somente 22 cromossomos. “O que acho mais interessante é que nunca havíamos chegado a um nível tão alto de detalhamento. O sequenciamento individual dos espermatozoides permitirá mapear as recombinações e entender como elas diferem as pessoas de uma forma bem mais ampla”, afirma Barry Behr, coautor do estudo e um dos diretores do programa de estudos da infertilidade da Universidade de Stanford.

O especialista acredita que a tecnologia poderá ajudar a compreender melhor os distúrbios reprodutivos, refinando os atuais métodos de reprodução assistidas que, para ele, ainda são “bastante incipientes”. Behr explica que, no processo de recombinação, alguns espermatozoides perdem grandes partes do cromossomo, impossibilitando a fecundação. “Eventualmente, pode ser difícil para os médicos identificarem que esse é o problema por trás do fato de um casal não conseguir ter filhos”, conta.

Jianbin Wang, porém, esclarece que, como os espermatozoides sequenciados são destruídos durante o processo, o mapeamento genético não pode ser aplicado para, em um método de reprodução assistida, descartar os gametas deficientes e escolher aqueles que têm todos os 23 cromossomos. “Nosso estudo pode não levar a um tratamento para homens inférteis, mas ajuda a determinar as razões por trás da infertilidade”, diz. Ele também afirma que, como o artigo publicado na Cell é a primeira demonstração do sequenciamento de um espermatozoide humano, ainda há alguns ajustes a serem feitos antes que a tecnologia esteja disponível do ponto de vista clínico.

O urologista Eduardo Pimentel, do Instituto Verhum, conta que a genética ainda responde por uma pequena parcela dos casos de infertilidade masculina, mas que essa é uma causa importante e de difícil tratamento. Ele explica que o primeiro exame realizado em homens que não conseguem reproduzir é o espermograma, um método simples, mas que passa diversas informações aos médicos. “Ele diz o número de espermatozoides, a atividade, a morfologia e a bioquímica do sêmen. A partir daí, o urologista monta um quebra-cabeça para saber por que o indivíduo é infértil”, diz.

Há também avaliações genéticas que podem apontar outros problemas, como a presença de um cromossomo extra. O mais comum é a trissomia do cromossomo 47 XXY quando, no processo de meiose do pai e da mãe, o indivíduo nasce com um X a mais nessa parte do DNA e não consegue produzir espermatozoides. “Acredito que, muito em breve, teremos a aplicabilidade clínica do estudo (da Universidade de Stanford). Hoje, há recursos genéticos que não estavam disponíveis 10 anos atrás. Apesar dos avanços, ainda falta muito nessa área”, afirma Pimentel.

Causas
As principais causas da infertilidade masculina são baixa produção ou má qualidade dos espermatozoides. Disfunções hormonais e varicocele (dilatação das veias que irrigam os testículos). Processos inflamatórios também podem estar por trás do problema e, nesses casos, é possível revertê-lo.

 

Correio Braziliense: Paloma Oliveto