Fortes cólicas menstruais e dor no ato sexual estão entre os principais sintomas da endometriose

Dr. Jean Pierre Barguil Brasileiro, em entrevista para Beatriz Vasconcelos, do Jornal da Comunidade
Dr. Jean Pierre Barguil Brasileiro, em entrevista para Beatriz Vasconcelos, do Jornal da Comunidade

Entre 6% e 10% da população mundial feminina sofre de endometriose. Trata-se da presença do tecido de revestimento interno do útero (endométrio) em lugares incomuns, como nos ovários, trompas, bexiga, peritôneo, intestino e até mesmo pulmões.

O problema atinge mulheres em fase reprodutiva em qualquer faixa etária, da adolescência à pré-menopausa. De acordo com o ginecologista Jean Pierre Barguil Brasileiro, do Instituto Verhum, as causas ainda não estão bem definidas. “São várias teorias tentando elucidar as causas da endometriose e, se existem várias, é porque nenhuma delas consegue satisfazer nossos anseios”, relata. “Uma delas diz respeito ao refluxo menstrual pelas trompas, que cai na cavidade pélvica. Acontece que 90% das mulheres têm esse refluxo, porque só algumas vão desenvolver a doença?”, questiona.

Segundo ele, a partir desse tipo de ocorrência, surgem outras dúvidas, como, por exemplo, a possível incapacidade de algumas mulheres em eliminar o sangue do refluxo menstrual ou se o sistema imunológico tem algum papel nesse processo. “As hipóteses existem, mas a medicina ainda não sabe exatamente o que provoca a endometriose”, lamenta.

Principais sintomas

Na avaliação dos sinais, a dor pélvica é a mais incidente e possui intensidade variada. Entretanto, cólicas menstruais e dor durante o ato sexual são muito comuns em pacientes com endometriose. Além disso, sintomas urinários e intestinais podem ser evidentes, principalmente se a bexiga ou as alças intestinais forem acometidas pela doença. Apesar de acontecer com pouca frequência, é possível desenvolver a endometriose sem apresentar nenhum sinal, o que pode gerar complicações e tornar o controle da disfunção mais difícil.

Evolução da doença

50% das mulheres com a doença têm dificuldade de engravidar. “A endometriose pode ter evolução lenta e benigna, como nas chamadas formas mínimas. Por outro lado, pode apresentar quadros de extrema gravidade, atingindo os mais variados órgãos. É como se a doença enviasse células metastáticas”, compara. Em casos raros, o problema pode evoluir e se tornar um tumor, o chamado carcinoma endometrioide, de grande malignidade.

A endometriose ocorre principalmente na pelve, em estruturas próximas às trompas. No entanto, órgãos extra-pélvicos podem ser atingidos, como o pulmão, por exemplo, como explica o dr. Jean: “É possível que haja implantação no diafragma superior, sem que a pessoa saiba que sofre da doença”.

De acordo com o médico, algumas pacientes apresentam quadro de enxaqueca pós-menstrual, distúrbios respiratórios e vômitos com sangue, no período da menstruação. “São sintomas de implante de endometriose pulmonar. É raro, mas pode acontecer e isso é sério”, alerta.

Jean Pierre Barguil: a cirurgia geralmente é feita por videolaparoscopia

Exames de imagem e cirurgia

Normalmente, o tratamento da doença é clínico, para tratar sintomas e evitar sua evolução, ou cirúrgico, quando existem lesões importantes. Para a eficácia dos procedimentos, o dr. Jean diz que é fundamental um diagnóstico bem feito. “Se há uma boa avaliação clínica, com exame físico apurado; se a paciente apresenta dor pélvica, mas não tem lesões importantes palpáveis, ou que apareçam nos exames de ressonância e de ecografia, com preparo especial para pesquisa de endometriose, e ultrassom, a gente pode, numa fase inicial, fazer o tratamento clínico. Contudo, se ficar evidenciada a presença de lesões de endometriose pelos exames físicos e de imagem, aí a paciente vai precisar de um procedimento cirúrgico para erradicar a doença”, esclarece. Ele lembra que os exames de ressonância e ecografia transvaginal, com preparo intestinal para mapeamento de endometriose, são os dois principais na pesquisa da doença.

Com a cirurgia, é possível retirar todas as lesões da endometriose pélvica, preservando os órgãos reprodutores e, consequentemente, eliminando toda a sintomatologia da paciente. Porém, de 10% a 20% dos casos ocorrem recidivas, num grau menor, ou depois de passarem cinco anos do tratamento. “A cirurgia tem poder de erradicar, só que há casos de endometrioses complexas, bastante infiltrativas e disseminadas”, informa.

De acordo com o ginecologista, algumas microlesões que podem passar despercebidas pelo médico durante o ato cirúrgico. “Por isso é que se faz tratamento clínico após a cirurgia, para evitar que a endometriose volte a causar incômodos”, arremata. Felizmente, não é preciso mais realizar intervenções cirúrgicas abertas do tipo cesárea, para eliminar a endometriose. A videolaparoscopia é o procedimento mais utilizado nesses casos, por ser mais eficaz e menos agressivo. “Por exemplo, pacientes que desejam engravidar têm resultados melhores com cirurgias realizadas por laparotomia ou laparoscopia”, explica. “A visualização das lesões também é melhor, além de ser um ato minimamente invasivo”, argumenta.