Novidade contra a endometriose

21-08-2012Chega ao Brasil o primeiro medicamento específico para tratar os sintomas da endometriose. Seus resultados são similares aos do tratamento até então considerado padrão, com injeções de GnRH. No entanto, a nova droga é um comprimido que não causa tantos efeitos colaterais, seu custo é bem menor (R$ 180 com 28 drágeas) e ela pode ser administrada por um período prolongado. Lançado pela fabricante Bayer na Europa com o nome Visanne, aqui no Brasil a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o remédio com outra denominação: Allurene.

Para mostrar a eficácia do medicamento, a Bayer fez ensaios clínicos durante 15 meses. Os estudos comprovaram que o Allurene é capaz de proporcionar alívio às dores – crônica, menstrual e durante o ato sexual – em mulheres com endometriose. Os comprimidos têm 2 mg de dienogeste, um progestogênio (composto sintético com efeito similar ao da progesterona) que suprime os efeitos do estradiol no tecido endometrial. Com isso, inibe-se a ovulação, reduzindo a atividade do ovário e há diminuição dos níveis de estrógeno, hormônio estimulante do endométrio. “No ciclo hormonal da mulher, o estrógeno aumenta o endométrio. A progesterona tem um efeito inverso. No caso da endometriose, se dermos progesterona ou diminuirmos o estrógeno, estaremos, possivelmente, controlando a doença”, afirmou o ginecologista Carlos Alberto Petta – vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva –, durante coletiva de imprensa promovida pela Bayer, em São Paulo.

 

ESTUDOS CLÍNICOS

O Allurene pode também atuar sobre a lesão endometriótica. De acordo com o médico Thomas Faustman, ginecologista-chefe da Área Global para Assuntos da Mulher na Bayer, em Berlim, dados clínicos sugerem efeitos adicionais para o controle da doença, impedindo a proliferação e até mesmo promovendo a redução da lesão.

Segundo o especialista, a ideia de usar o dienogeste para tratar endometriose não é nova. Pesquisas foram iniciadas na Alemanha e interrompidas na década de 1980, devido às mudanças políticas ocorridas na Europa. “Na época da reunificação política alemã, o dienogeste ficou disponível no país apenas sob o aspecto de uma pílula, e toda essa pesquisa teve de começar novamente, porque as novas leis não validavam os estudos para a aprovação do medicamento”, justifica.

O Japão foi mais rápido. No país nipônico, um outro laboratório lançou um medicamento similar um ano e meio antes da Bayer. Para reafirmar a eficácia do Allurene. Thomas soma os resultados: “Com relação à química, é uma progestina, e essa estrutura apresenta um perfil muito favorável, que permite o uso em dosagem baixa, sendo bastante específica sobre o endométrio”.

 

Jean Pierre: “Ainda não temos uma medicação capaz de eliminar todos os sintomas, mas houve avanços”

 

Contraceptivos

Mesmo diante dessa nova opção de terapia, ainda não existe um tratamento clínico desejável, que possa sanar todos os problemas causados pela endometriose. Se não for por meio cirúrgico ou em período pós-menopausa, a doença não tem cura. As indicações de cirurgias continuam para os casos necessários, como lesões mais agressivas ou que possam atingir outros órgãos do corpo.

A paciente usuária do Allurene não tem a garantia de estar usando um meio contraceptivo. Se uma gravidez não está nos planos, é muito importante conversar com o médico sobre outros métodos. De acordo com o ginecologista Jean Pierre Brasileiro, do Instituto Verhum, os anticoncepcionais via oral não podem ser associados à medicação e o Allurene não está aprovado como contraceptivo. “Apesar de os trabalhos mostrarem que ele inibe a ovulação, os estudos não foram suficientes para afirmar que também age como método contraceptivo”, avisa. “Por enquanto, a usuária vai ter de usar método anticoncepcional de barreira, como DIU ou camisinha, até que saiam mais trabalhos comprovando o efeito contraceptivo”, acrescenta.

Carlos Petta, por sua vez, acredita que a chance de a mulher engravidar utilizando Allurene é a mesma comparada ao uso de uma pílula aprovada como anticoncepcional. “As taxas de ovulação com o Allurene são iguais ou menores às dos contraceptivos que conhecemos. Apenas não está aprovado como um anticoncepcional, porque, para isso, são necessários estudos específicos”, argumenta.

Contraindicações – Pesquisas mostram uma boa tolerabilidade das pacientes em relação ao medicamento, com poucos impactos sob o ponto de vista metabólico. Mas há contraindicações, como nos casos de depressão severa e câncer de mama. Contudo, ainda é cedo para afirmar se pessoas portadoras de problemas vasculares podem correr riscos com o uso desta medicação. “Tudo deve ser avaliado individualmente. Pacientes com distúrbios vasculares amenos não têm contraindicação, mas aquelas que tiveram alterações importantes, como trombose, vão precisar ser avaliadas por um angiologista, para definir o uso ou não do Allurene”, pondera Jean.

Para o médico, a vantagem desse medicamento para os anticoncepcionais sem pausa usados para supressão do ciclo menstrual está no fato de ele não utilizar estrógeno associado e diminuir os sintomas da endometriose. “Ainda estamos longe da medicação ideal, que elimine todos os sinais da doença. Por outro lado, é uma droga com menos efeitos colaterais e, ao suspender o seu uso, o retorno da fertilidade é rápido”, conclui.não dar tempo!”, assevera.

 

Fonte: Jornal da Comunidade