Parto normal ou cesariana?

28-08-2012_imgDe acordo com o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) do Ministério da Saúde, em 2010 as cesarianas representavam 52% dos partos realizados nas maternidades públicas e privadas de todo o país. No total, foram cerca de 1,5 milhão de bebês nascidos por meio da cirurgia. Em Brasília, especialistas afirmam que nos hospitais particulares a estatística aponta em torno de 90% para partos cesarianos. A diferença é tão discrepante que justifica a tamanha discussão existente acerca dos reais motivos que levam tantas mulheres a optarem pela cirurgia. No serviço público, vale lembrar, o parto cesariano é feito somente com indicação médica.

Profissionais da saúde que defendem os conceitos do parto humanizado, idealizado pelo médico francês Michel Odent, bem como as questões de proximidade mãe e filho apontados por Ashley Montagu e Frederic Laboyer, têm incentivado o parto vaginal. Eles consideram, quando não há nenhum inconveniente ou contraindicação, que esta via é a melhor para mãe e bebê.

Apesar da alta incidência de cesáreas no país, a aceitação do parto natural está cada vez maior, na avaliação do ginecologista e obstetra Alberto Jorge de Sousa Guimarães. “Hoje, uma mulher bem orientada prefere o parto normal humanizado, inclusive, com a menor necessidade possível de intervenções médicas ou farmacológicas. Isso dá ao recém-nascido uma experiência acolhedora nesse período de transição”, assinala. “Ao contrário do que algumas gestantes podem pensar, o parto normal bem feito é tão seguro quanto uma cesariana e tem muitas vantagens, tanto para a mãe, quanto para o bebê. Sem contar que a recuperação da mulher é muito mais simples e ela não precisa passar pela cirurgia, que é considerada de médio porte”.

 

PRIORIZANDO A SAÚDE

Para o obstetra, o corpo da mulher foi feito para dar à luz naturalmente, mas, quando existem situações que realmente impedem a evolução para o parto normal, a cesariana é bem indicada e pode fazer toda a diferença no desfecho do trabalho de parto. Daí a importância de se fazer um pré-natal, onde alguns desses fatores podem vir à tona. Mulheres que passaram por cirurgia de mioma intramural (mioma localizado no músculo do útero); casos de gravidez gemelar, em que o primeiro bebê está sentado e o segundo de cabeça para baixo; gravidez múltipla com mais de dois gêmeos; quando a criança tem um tamanho avantajado; e quando a mãe possui algum problema ósseo que influencia as vias do parto; ou mesmo no caso do bebê estar sentado no útero e a paciente estiver em seu primeiro parto, são algumas das situações plausíveis de indicação de uma cesárea. “Defender parto normal, sim, porém priorizando sempre a segurança do binômio mãe e bebê”, salienta o médico Alberto Jorge.

 

Maior proximidade entre a mãe e o bebê

O ginecologista e obstetra Alberto Henrique Barbosa acredita que o parto natural confere à mãe e ao bebê uma maior proximidade após o nascimento. “Pela via vaginal, o entrosamento se dá instantaneamente após o parto. Na cesariana isso demora, a paciente tem que se recuperar da anestesia e leva mais tempo para começar a amamentar. Então, ela não se liga ao bebê espontaneamente”, argumenta.

De acordo com o especialista, ainda persistem muitos mitos em relação ao parto normal, como, por exemplo, que haverá “queda” de bexiga ou a mulher poderá não mais satisfazer o marido da mesma forma que antes. Contudo, segundo ele, partos bem conduzidos dificilmente geram “queda” de órgãos internos. Seja como for, o importante é que a gestante esteja bem acompanhada pelo seu médico, para não haver nenhum problema posterior.

 

Direito de escolha

A ginecologista Silândia Amaral da Silva Freitas, especialista do Instituto Verhum em gravidez de alto risco, considera o parto normal como o mais vantajoso, se a mulher estiver nas condições ideais. “Eu sempre estimulo o parto natural, porque a recuperação da paciente é muito melhor”, defende. Entretanto, segundo ela, é preciso que a gestante esteja envolvida e preparada para um processo que pode levar horas, até o nascimento. “A maioria das grávidas não quer o parto normal, porque teme a dor. Quando explico que a analgesia alivia, em média, 70% desse desconforto, muitas mudam de opinião. Hoje, não é preciso sofrer tanto para dar à luz. Se, mesmo assim, a paciente disser que prefere a cirurgia, ela tem direito de escolher e eu respeito”, diz.

A idade da gestante, de acordo com a médica, não é fator limitante para se ter parto normal. Pessoas acima de 40 anos, por exemplo, podem passar por esse processo se não houver riscos envolvidos. Além disso, mesmo quem já fez cesárea numa outra gravidez, se estiver tudo bem, poderá ter parto normal. “O que não se faz, em regra, é a indução de trabalho de parto quando a paciente teve cesárea prévia. Mas, caso entre espontaneamente em trabalho de parto, isso é viável, dependendo também da indicação da primeira cesariana”, esclarece. Segundo ela, exercícios físicos durante a gestação, principalmente os específicos para fortalecer a musculatura da pelve, contribuem muito para viabilizar o parto normal.

 

Em casa ou no hospital ?

Recentemente, o parto domiciliar foi objeto de debates acalorados entre profissionais de saúde. Uma recente resolução do Conselho Federal de Medicina, apesar de não proibir que obstetras realizem partos na casa das pacientes, recomenda que o procedimento seja feito em hospitais, por considerá-los lugares mais seguros. “Estudos científicos importantes comprovam que partos realizados em ambiente hospitalar têm menor risco de gerar complicações, o que representa menores taxas de mortalidade e de morbidade para mães, fetos e recém-nascidos”, diz o referido texto.

Para o ginecologista Claudio Basbaum – que introduziu o parto Leboyer e a técnica Shantala no Brasil –, numa maternidade há mais chances de se resolver com eficácia eventos inesperados. “É possível ter um parto humanizado no hospital”, garante.

Apesar do parto em casa passar a sensação de intimidade e aconchego, não oferece a segurança indispensável em situações de emergência. “Já participei de várias situações dramáticas durante um trabalho de parto, que expunham mãe e bebê a riscos de lesões ou mesmo de morte e que, graças aos recursos médico-hospitalares, pudemos solucionar, na sua maioria”, afirma o obstetra, que acrescenta: “Imaginemos o drama de uma mulher que precise de um suporte médico hospitalar num caso de hemorragia obstétrica ou qualquer outra ocorrência grave durante o parto. Ela terá de ser transportada imediatamente para uma UTI, mas, antes, precisará vencer a batalha do trânsito, encontrar vaga numa maternidade e ainda passar pela burocracia de uma internação (‘qual é o convênio?’). Simplesmente, na maioria das vezes, pode não dar tempo!”, assevera.

 

Fonte: Jornal da Comunidade